O Thiago Suniga assistiu à última sessão da peça Guizos no Teatro da Lupah! e compartilhou conosco seus pensamentos :)
Guizos
Dia cinco de novembro de 2011, assisti a uma peça teatral chamada. Foi uma experiência única e eu poderia me perder aqui em críticas, mas não o farei. Ao invés disso, me resignarei à minha ignorância e assim permanecerei em minha zona de conforto, sem abusar demais das palavras e das vontades. Ouso, entretanto, afirmar em uma palavra - uma ótima palavra, diga-se de passagem - aquilo que sempre irá estar em minha memória quando pensar nessa peça. E a palavra é: inspirador.
No meio da peça, no escuro, me peguei pensando em palavras para encaixar sensações que eram tão verdadeiras, mas que ao mesmo tempo me eram inteiramente desconhecidas. Aproveitei da iluminação, da música e da própria atuação para meus pensamentos em um contexto estranho, mas completamente humano. Tão humano quanto o personagem e tão vivo quanto o ator. Descobri-me pensando em palavras sem nexo, as quais lentamente ganhavam certezas conforme o cenário mudara.
Sim, a peça Guizos me inspirara, e agora deixo aqui o fruto dessa inspiração.Eu estava sentado sobre a cama. Não, não ousaria me deitar, mesmo que o cansaço se fizesse presente e meus pensamentos clamassem por sossego. Não, não iria me deitar, pois eu podia sentir que ele estava ali, me procurando, apenas aguardando que eu me descuidasse e que ele me encontrasse. No escuro nós estávamos. Eu e o demônio, meu próprio demônio, que em passos letárgicos evidenciava sua presença de maneira tão sinistra que eu sequer ousaria respirar.
Mesmo sem conseguir ver nada, permaneci com os olhos abertos, procurando na escuridão a silhueta dele. Não via, apenas ouvia. Então, sua voz ecoou como um trovão, trazendo um infeliz calafrio às minhas costas. Temi, pois ele estava próximo. Temi, pois suas palavras traziam verdades que me possuíam com tamanha precisão que qualquer mentira dita se tornaria fruto de minha própria imaginação. Sendo, portanto, uma certeza minha, mesmo que não me pertencesse.
Senti uma coceira no braço, mas não ousei me mexer. Se tentasse, ele me veria. Apenas meus olhos orbitavam a procura dele, mas apenas as trevas eu conseguia encontrar. Meu pescoço se movia lentamente conforme ele parecia andar pelo quarto. Sentia todas as fibras dos meus músculos acompanharem aquele andar.
Em minha garganta, uma irritação que traria tosse, mas a qual eu segurei, temeroso de ser encontrado. Ele continuava a falar, tentando me enganar, recitando mentiras que relatavam minhas verdades. Ele ia, como o demônio que era, tentando convencer a tudo e a todos. Eu não podia acreditar, não podia aceitar que minha mente fosse tomada por aquele ser cujo tormento era tão profundo que fazia com que meu corpo inteiro pesasse.
Uma luz se acendeu no canto do quarto. Sempre a mesma luz, sempre no mesmo horário. Avistei o demônio, mas ele não me via. Em seus dedos pálidos, uma faca gotejava pequenos fragmentos de vida. Tentei me mexer, mas seus olhos rapidamente caíram sobre mim e ele veio em minha direção. Não respirei. Fechei os punhos sobre meu colo, e só então percebi que segurava um pedaço de papel. Não sei como recebi, mas sei que eram importantes.
As luzes se apagaram novamente, e sua voz de trovão se emudeceu, unindo-se às paredes e desaparecendo no vazio. Infelizmente, ele continuava lá. Sim, eu podia ouvir sua respiração próxima a mim. Sim, podia sentir seu corpo tremer, no anseio de largar uma existência vazia. Lentamente, percebi que sussurros ecoavam por todo lugar. Seus significados, terríveis significados, eram perdidos antes que pudessem chegar ao meu ouvido. O que, contudo, eu ouvia, era o som que a própria morte tocaria em um belíssimo espetáculo fúnebre.
Novamente, uma luz se acendeu e eu o vi muito próximo a mim. Fitei-o, com desespero no olhar, enquanto ele retribuía com dois orbes vazios, que atravessavam minha existência e mostrava inteiramente minha alma. Por um momento, contudo, seu rosto pareceu desaparecer. Suas vestes, negras como a noite, também sumiram no cenário e, mesmo que a luz continuasse acesa e a mobília do quarto pudesse ser vista em um sombreado sinistro, eu não o via. Mas, o ouvia. Ali estava ele, respirando ao meu lado. Dessa vez, invisível.
Então, a luz apagou novamente e sua voz voltou a ressoar ruidosamente naquele quarto. Mesmo sem conseguir enxergar, fechei os olhos. Ouvi, então, todas as suas ilusões tentarem me convencer de uma vida que eu me negava a ter. E, enquanto negasse, eu sabia que sua existência seria tão vazia quanto um guizo sem núcleo.
Quando abri os olhos novamente, a luz se acendeu. No canto do quarto, fraca, sinistra. Fitei novamente o demônio, carregando consigo novamente aquela faca. Observei atentamente, pois ele novamente me fitava. Suas palavras eram fortes, fortes demais. Eu tentava resistir, mas ficava difícil a cada instante. Queria dormir, queria entregar meu corpo e ser aquilo que o demônio tanto clamava para que eu fosse.
Então, outra luz se acendeu, e a figura do demônio tornou-se mais clara. Ele se aproximou, beijou-me nos lábios e enfim todas as luzes se acenderam. Engraçado, entretanto, que o quarto inteiro estivesse iluminado enquanto meu coração perdia-se nas trevas daquele olhar: o mesmo olhar que me fitava no reflexo do espelho.
Em meus dedos, a faca ensanguentada, que parecia tão etérea que, em um breve segundo, desapareceu de meus dedos. E o quarto, com suas paredes amarelas, tornou-se um cômodo acolchoado, e meu corpo inteiro estava atado em uma camisa de força que transformava minhas energias em terríveis dores nos ossos.
Então, novamente a faca ensanguentada voltou entre meus dedos. O quarto tornou-se o porão de minha velha casa. Em meus lábios, o sorriso débil proveniente do único momento em que eu me sentia verdadeiramente feliz. Em meus olhos, o demônio estava presente, mas a euforia também estava ali enquanto eu fitava o corpo inerte de uma criança, sangue do meu sangue, aos meus pés. Enfim, vivendo, não mais apenas existindo.
Tudo escureceu. Novamente, eu estava sentado. Queria deitar e dormir, mas as amarras não deixavam. Congelei, pois ao longe ouvi o som que lembrava um celular vibrando. Era frenético, vivo, pulsante, como um coração jovem tremendo por amor. Então, uma luz se acendeu no canto da sala, e com ela veio a minha existência vazia.
Em meus dedos, não mais havia a faca ensanguentada. E, no breu, ouvi seus passos se aproximarem. Novamente o demônio chegava, e eu o temia... Mas, no fundo, eu sabia:
Ele vinha apenas para me tornar aquilo que eu sempre fui.