segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Mostra Municipal de Teatro

Texto escrito pelo diretor da Cia Experiencial O Teatro do Excluído, Luiz Henrique Dias.

Começa nesta terça-feira, 15 de novembro, a Mostra Municipal de Teatro do Foz do Iguaçu.

Temos, no entanto, pouco, muito pouco, a comemorar.

Com um orçamento 10% do inicial, o que era para ser um grande encontro com o Festival Latino-Americano, a Mostra Nacional e a Mostra Municipal foi adaptado às migalhas e acabou só na Mostra Municipal (mais barata, menos trabalhosa e paliativa). Os dois outros encontros (Nacional e Internacional) foram adiados e, ao que dizem, somente em 2012 serão produzidos.

O evento, apesar de sua pífia capacidade de agregar valor à cidade, é simbólico e representa a luta de poucas pessoas para fazerem a Cultura funcionar minimamente em Foz do Iguaçu. Os avanços com a ida de Juca Rodrigues à Fundação, junto com sua pequena, mas trabalhadora, equipe, e a volta do diálogo com a nomeação de João Adelino para a pasta não bastam. São grandes pessoas e ótimos profissionais. Mas, sem dinheiro, é impossível se obter resultados.

Minha Companhia vai participar da Mostra com a Peça Guizos, em cartaz desde julho. Já falei isso publicamente e repito: vamos estar na Mostra em respeito a equipe de trabalho da Fundação e à cidade. E só. Estávamos inscritos no Festival Latino-Americano. Participar da “versão enxuta” foi uma decisão do Grupo. Uma forma de protestar sem boicote.

Acredito ser a sequência de acontecimentos que impediram a cidade de receber um grande evento de teatro a exposição de um grave problema: a falta de entendimento da função da cultura na sociedade e do significado do termo “políticas públicas de cultura”.

Cultura não é gasto.

Quantas vezes vamos ter que dizer e quantos exemplos bem sucedidos pelo Brasil precisamos mostrar para provar o tamanho da importância da valorização cultural e da produção estética para uma sociedade?

Onde estão os Pontos de Cultura? Onde estão as salas de espetáculos (e não aquele teatrão horroroso que querem fazer)? Onde está o Sistema Municipal de Cultura funcionando e como será tudo depois da Conferência Municipal e da eleição do Conselho? Não adianta meia dúzia de pessoas bem intencionadas. Cultura se faz com dinheiro e, principalmente, com respeito.


Retirado do blog do Luiz :)

domingo, 13 de novembro de 2011

As Impressões e o Resultado de Uma Inspiração

O Thiago Suniga assistiu à última sessão da peça Guizos no Teatro da Lupah! e compartilhou conosco seus pensamentos :)

 
Guizos

Dia cinco de novembro de 2011, assisti a uma peça teatral chamada. Foi uma experiência única e eu poderia me perder aqui em críticas, mas não o farei. Ao invés disso, me resignarei à minha ignorância e assim permanecerei em minha zona de conforto, sem abusar demais das palavras e das vontades. Ouso, entretanto, afirmar em uma palavra - uma ótima palavra, diga-se de passagem - aquilo que sempre irá estar em minha memória quando pensar nessa peça. E a palavra é: inspirador.

No meio da peça, no escuro, me peguei pensando em palavras para encaixar sensações que eram tão verdadeiras, mas que ao mesmo tempo me eram inteiramente desconhecidas. Aproveitei da iluminação, da música e da própria atuação para meus pensamentos em um contexto estranho, mas completamente humano. Tão humano quanto o personagem e tão vivo quanto o ator. Descobri-me pensando em palavras sem nexo, as quais lentamente ganhavam certezas conforme o cenário mudara.

Sim, a peça Guizos me inspirara, e agora deixo aqui o fruto dessa inspiração.
Eu estava sentado sobre a cama. Não, não ousaria me deitar, mesmo que o cansaço se fizesse presente e meus pensamentos clamassem por sossego. Não, não iria me deitar, pois eu podia sentir que ele estava ali, me procurando, apenas aguardando que eu me descuidasse e que ele me encontrasse. No escuro nós estávamos. Eu e o demônio, meu próprio demônio, que em passos letárgicos evidenciava sua presença de maneira tão sinistra que eu sequer ousaria respirar.

Mesmo sem conseguir ver nada, permaneci com os olhos abertos, procurando na escuridão a silhueta dele. Não via, apenas ouvia. Então, sua voz ecoou como um trovão, trazendo um infeliz calafrio às minhas costas. Temi, pois ele estava próximo. Temi, pois suas palavras traziam verdades que me possuíam com tamanha precisão que qualquer mentira dita se tornaria fruto de minha própria imaginação. Sendo, portanto, uma certeza minha, mesmo que não me pertencesse.

Senti uma coceira no braço, mas não ousei me mexer. Se tentasse, ele me veria. Apenas meus olhos orbitavam a procura dele, mas apenas as trevas eu conseguia encontrar. Meu pescoço se movia lentamente conforme ele parecia andar pelo quarto. Sentia todas as fibras dos meus músculos acompanharem aquele andar.

Em minha garganta, uma irritação que traria tosse, mas a qual eu segurei, temeroso de ser encontrado. Ele continuava a falar, tentando me enganar, recitando mentiras que relatavam minhas verdades. Ele ia, como o demônio que era, tentando convencer a tudo e a todos. Eu não podia acreditar, não podia aceitar que minha mente fosse tomada por aquele ser cujo tormento era tão profundo que fazia com que meu corpo inteiro pesasse.

Uma luz se acendeu no canto do quarto. Sempre a mesma luz, sempre no mesmo horário. Avistei o demônio, mas ele não me via. Em seus dedos pálidos, uma faca gotejava pequenos fragmentos de vida. Tentei me mexer, mas seus olhos rapidamente caíram sobre mim e ele veio em minha direção. Não respirei. Fechei os punhos sobre meu colo, e só então percebi que segurava um pedaço de papel. Não sei como recebi, mas sei que eram importantes.

As luzes se apagaram novamente, e sua voz de trovão se emudeceu, unindo-se às paredes e desaparecendo no vazio. Infelizmente, ele continuava lá. Sim, eu podia ouvir sua respiração próxima a mim. Sim, podia sentir seu corpo tremer, no anseio de largar uma existência vazia. Lentamente, percebi que sussurros ecoavam por todo lugar. Seus significados, terríveis significados, eram perdidos antes que pudessem chegar ao meu ouvido. O que, contudo, eu ouvia, era o som que a própria morte tocaria em um belíssimo espetáculo fúnebre.

Novamente, uma luz se acendeu e eu o vi muito próximo a mim. Fitei-o, com desespero no olhar, enquanto ele retribuía com dois orbes vazios, que atravessavam minha existência e mostrava inteiramente minha alma. Por um momento, contudo, seu rosto pareceu desaparecer. Suas vestes, negras como a noite, também sumiram no cenário e, mesmo que a luz continuasse acesa e a mobília do quarto pudesse ser vista em um sombreado sinistro, eu não o via. Mas, o ouvia. Ali estava ele, respirando ao meu lado. Dessa vez, invisível.

Então, a luz apagou novamente e sua voz voltou a ressoar ruidosamente naquele quarto. Mesmo sem conseguir enxergar, fechei os olhos. Ouvi, então, todas as suas ilusões tentarem me convencer de uma vida que eu me negava a ter. E, enquanto negasse, eu sabia que sua existência seria tão vazia quanto um guizo sem núcleo.

Quando abri os olhos novamente, a luz se acendeu. No canto do quarto, fraca, sinistra. Fitei novamente o demônio, carregando consigo novamente aquela faca. Observei atentamente, pois ele novamente me fitava. Suas palavras eram fortes, fortes demais. Eu tentava resistir, mas ficava difícil a cada instante. Queria dormir, queria entregar meu corpo e ser aquilo que o demônio tanto clamava para que eu fosse.

Então, outra luz se acendeu, e a figura do demônio tornou-se mais clara. Ele se aproximou, beijou-me nos lábios e enfim todas as luzes se acenderam. Engraçado, entretanto, que o quarto inteiro estivesse iluminado enquanto meu coração perdia-se nas trevas daquele olhar: o mesmo olhar que me fitava no reflexo do espelho.

Em meus dedos, a faca ensanguentada, que parecia tão etérea que, em um breve segundo, desapareceu de meus dedos. E o quarto, com suas paredes amarelas, tornou-se um cômodo acolchoado, e meu corpo inteiro estava atado em uma camisa de força que transformava minhas energias em terríveis dores nos ossos.

Então, novamente a faca ensanguentada voltou entre meus dedos. O quarto tornou-se o porão de minha velha casa. Em meus lábios, o sorriso débil proveniente do único momento em que eu me sentia verdadeiramente feliz. Em meus olhos, o demônio estava presente, mas a euforia também estava ali enquanto eu fitava o corpo inerte de uma criança, sangue do meu sangue, aos meus pés. Enfim, vivendo, não mais apenas existindo.

Tudo escureceu. Novamente, eu estava sentado. Queria deitar e dormir, mas as amarras não deixavam. Congelei, pois ao longe ouvi o som que lembrava um celular vibrando. Era frenético, vivo, pulsante, como um coração jovem tremendo por amor. Então, uma luz se acendeu no canto da sala, e com ela veio a minha existência vazia.

Em meus dedos, não mais havia a faca ensanguentada. E, no breu, ouvi seus passos se aproximarem. Novamente o demônio chegava, e eu o temia... Mas, no fundo, eu sabia:

Ele vinha apenas para me tornar aquilo que eu sempre fui.

Há outros textos do Thiago neste blog :)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Segunda Temporada!

Depois de uma primeira temporada muito satisfatória, a Companhia voltará, neste sábado (24/09), com a peça Guizos para uma segunda temporada!

Vocês se lembram de algo assim acontecendo em Foz do Iguaçu?

Agora, as sessões acontecerão apenas aos sábados :) Lembrando que são apenas 12 espectadores por sessão e que as reservas são feitas pelo email teatrodoexcluido@gmail.com.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Impressões de Antônio

No dia 04 de setembro, chegou ao fim a primeira temporada de Guizos. Desde o início da proposta, tínhamos, conscientemente, a intenção de ser um grupo que não fosse visto como um grupo que proporciona o entretenimento, mas uma companhia de teatro que dá ao seu público, e a seus integrantes, a possibilidade de desvendar - por meio de textos subjetivos e complexos, e de uma interpretação que foge aos parâmetros já conhecidos pela sociedade - outras faces do homem, o interior de indivíduos, a sua instabilidade e sua complexidade.
Tínhamos, também, como uma certeza, que causaríamos estranhamento, devido a esta nossa proposta, e também a nossa ousadia de trabalhar com um teatro repleto de complexidades e elementos inesperados para um público que está acostumado a espetáculos pastelões, que tem como única intenção o entretenimento e a domesticação e unidade de sensações e sentimentos.
Após a estreia, e durante toda a temporada, foi então, para nós, uma grande surpresa o número de elogios e de aceitação do público à nossa maneira de fazer teatro, tanto daqueles que já são do meio, quanto de pessoas que vieram ao nosso teatro por curiosidade, ou por vontade de ver teatro.
Esperamos, então, de alguma maneira, que recebessemos alguma crítica, alguma visão negativa ao nosso trabalho. Tivemos o conhecimento, no início desta semana, logo após o final da bem sucedida temporada, de um texto que começou a circular por e-mails. Pessoas próximas a nós nos disseram que este era um texto que criticava nosso teatro, nossa maneira de dirigir, atuar, e trabalhar o tão elogiado texto do dramaturgo Luiz Henrique Dias.
Porém, ao analisarmos o texto, e o contexto de tudo que está ali escrito, visualizamos os comentários do autor, que assina o texto como Antônio, de uma maneira um tanto quanto diferente.
O autor menciona em seu texto a definição de dramaturgia de Aristóteles, uma visão antiga, e que é justamente o que nós, e todos os grupos que trabalham com teatro contemporâneo, tentamos desmitificar.
Há também, visivelmente, uma sensação de incômodo do autor a todos os elementos que constituem nosso teatro, tanto o texto, quanto a estrutura física, os sons, as luzes, o ator, os integrantes. Tudo que o autor diz para criticar, nós não vemos de maneira negativa. A chateação com os sons dos interruptores, a monotonia e repetição da música, a estaticidade do ator, a tonalidade de sua voz. Todas as sensações descritas no texto, são intencionais. Vimos, então, que se a incomodação foi tamanha, que levou esta pessoa a escrever um texto, a pesquisar termos e conceitos e nomes, e tirou horas do seu dia para que conseguisse escrever este texto, nós conseguimos, então, cumprir nosso papel, o que pretendíamos desde o início: causar estranhamento, e criar vários questionamentos no público.
O texto, que postaremos abaixo, é visto pelos integrantes do Teatro do Excluído, então, não como uma crítica negativa, mas sim, como um elogio esquizofrênico, uma tentativa desesperada de expulsar do autor os demônios que habitaram seus pensamentos após ter assistido Guizos, e que o perturbaram a ponto de escrever até agressões. É apenas necessário, agora, que os questionamentos que a peça o causaram, sejam solucionados, e que ele possa, então, assistir-nos novamente, e talvez abrir as portas para outras novas sensações que ainda seremos capazes de causar em nossa plateia.

‘GUIZOS’ EM FOZ
(4/setembro/2011 - Antônio) 


DESAMBIGUAÇÃO: Há, desde 2002, OS GUIZOS, uma equipa de teatro etc. em Portugal com proposta semelhante e três peças em cartaz.

FAZ MUITO TEMPO Aristóteles definiu a dramaturgia como a organização de ações humanas de forma coerente provocando fortes emoções ou um estado irreprimível de gozo ou maravilhamento (sic).

NO DÉPLIANT. Respeitam o TO do Boal, mas não o parafraseiam. Querem inovar a inovação e, como o R. Alvim (amante de Poe e fundador do Club Noir), querem provocar. Consideram-se a nova proposta na cidade. Estão coesos na pesquisa e na ‘experienciação’, eta palavrinha que cresceu, né?! Que-rem reescrever o teatro. E para ocupar instâncias criadas à base de contraposições como luz-trevas, presença cênica-ausência, palavra-silêncio, é que Guizos foi criado(o?). É a história de quem não somos. ‘O assassinato’ (singular), diz o Luiz Henrique, ‘é pouco diante do asco humano’. Só não entendi porque o ‘Tom mata por amar’. E que ‘dialoga com o vazio’; mas como do vazio não sai uma só palavra... também não entendi, acho que ele só monologa mesmo, sabe?! Pelo jeito o Pasini entendeu tudo desde o começo. Que coisa, hein?! E comentam que ‘sua interpretação [vírgula] estática [vírgula] é genial’. Não atino como a estática num ator [agir/atuar] possa ser genial. A Pastore ‘produziu, em acordes [vírgula] mixados [vírgula] a tensão exata’ e monótona também, ajuntemos. A Keller ‘deu vida à palavra’, ai, aqui doeu. A moça incomodou a peça inteira com um teque-teque enervante que daria vida é a um palavrão... Pétalas são jogadas no Virgínio dos refletores que tão pouco refletiram e no Amaral publicitário... No comment! Parece que ele é bom. A pretensão da equipe se esvazia toda na frase: Guizos é somente o que quisemos que fosse: uma historia contada – quase – no escuro. Recitada!

O MINIMALISMO. A fachada da salinha Lupah é bem minimalista com uma pincelada do Miró naïf. “Segundo os minimalistas, formas mínimas garantem intensidade máxima na experiência, na fruição da obra.” Só 12 expectadores no máximo, avisa logo o vendedor de ingressos que é o dramaturgo e o diretor da peça. Só 12 e ‘com a boca costurada grosseiramente’, a gente fica sabendo depois. O cliente, porém, não achará o preço da entrada tão minimalista. No fundo, o minimalismo é bem capitalista, afinal a idéia é conseguir o máximo (do proveito ou lucro) com o mínimo (de inversão e serviço) e o bem vendido não tem que durar, para poder... Mas não é o caso de Guizos, tá?!

AO ENTRAR na sala minúscula, cortinas escuras, a claustrofobia fica à espreita, banquinhos desconfortáveis lhe desestabilizam. Você poderá ter a impressão de ter chegado a uma sessão de espiritismo kardecista, mas não se assuste. Pra começar a luz insuficiente não é azul, não há copos de água fluidificada e o ator do personagem esquizofrênico faz questão de não ter alma. Como pode haver espírito desse jeito?

LUCUBRO então: Sertanejos vazam os olhos de certos passarinhos pra que eles, não vendo a luz e ansiando por ela, cantem mais bonito ainda e o tempo todo. Os velhos europeus castravam os meninos afinados para que, crescendo, não perdessem o timbre angelical. Os necrófilos, não podendo sempre violar os cemitérios, adoram transar com putas que se fingem de mortas. Viria a calhar um recurso técnico bem inovador em Guizos. Escutar toda a peça com e somente com um daqueles programas gratuitos de Internet que lêem textos de maneira bastante competente, não obstante o acento metálico. E pra não repetir Artaud com o uso dos manequins no espetáculo, a atual animação gráfica poderia ser outro recurso interessante. O Pasini, dando um passo em direção à excelência na performance, poderia ir entregando, durante a apresentação, aos poucos e em total silêncio, o texto do poema escrito, aos assistentes, assim em meias folhas de A4, poderia até amassá-las um pouco, e jogálos no chão, para dar asco, mas amassá-los só um pouco. Afinal o respeito à palavra deve predominar, mas ai, por favor, precisariam poupar-nos dos teque-teques exasperantes dos interruptores, pra gente poder ler sossegado. Por outro lado, alvíssaras! Não escutei o chatíssimo ‘r’ retroflexo, que infesta também esta nossa região paranaense, parabéns Pasini! Dicção clara e gostosa! Sua mão (dele) magra e nervosa (os dedos angulosos, veja no Youtube), já no início tamborila na parede ‘poeirenta’ como uma aranha transitando, tecendo, negaceando, num perigoso crescer, menciona-se a cadeia trófica... e a fala dá a clave de leitura do todo: a gente mata os filhos, pra não ter que dar-lhes cada coisa, tudo, até a própria alma, que ele nem possui. Desce o pau no consumismo e na TV, na TV, na TV, numa ladainha bem lúcida, é o Dias!

O PADRINHO MEDINA. Nos quadros que se sucedem caóticos, assim é a vida, você descobre que o dramaturgo e seu cúmplice, o ator, pretendem (tão pretensiosos) fazê-los emblemas “dos tempos híbridos em que vivemos” (é o Medina que escreve isto na resenha, p. 4 do prospecto obscuro, pela gráfica e pelo conteúdo e luminoso no beneplácito), tempos “que não apresentam enquadraturas configurantes”. Ele tem toda a razão de que “necessitamos de olhares luminosos sobre o humano”. Depois desta peça, você sai convencidinho disto. O Tom varia, tresvaria, se ausenta, se apresenta e, tadinho, foge no final da peça. Você pode até aplaudir, mas ficará sem graça, ele não aparece meijmo! Assim, junta ao parricídio duplo o infanticídio e a este, o suicídio. Pasini, cujo nome é Gabriel, anula ‘o poema de sua vida’, para não prejudicar o do Luis Enrique Dias que prefere as noites. Afinal o ideal do mencionado ator é ser marionete, andróide, zumbi, sei lá! Ah, se o sindicato dos atores souber disto! Mas falando sério: este Maeterlinck é bem doido, né? Mas três frases dele não: 1) O silêncio é o elemento no qual se formam as grandes coisas. 2) Se é incerto que a verdade que vais dizer seja compreendida, cala-a. 3) A inteligência é a faculdade com o auxílio da qual compreendemos por fim que tudo é incompreensível. Todos devemos bater no peito.
CADÊ O TO? Fiquei oprimido durante toda a sessão e, por isto, tive saudades do Boal e seu TO, o da desmecanização física e intelectual de seus praticantes, e da democratização do teatro, mas se isto sumiu nos Guizos, saudoso Boal, já é culpa do dramaturgo-diretor que não quer mesmo parafraseá-lo. Radicalizaram uma tirada do Diderot que queria só ‘uma certa marionetização da arte do ator, e não sua substituição por um boneco’. E o Tom, noutro Tom, se vitupera esquizóide que seu Deus não virá.
– Idiota! diz. E varia o danado, dizque pra ‘valorizar a palavra’, muda de tom, de ritmo, de volume, fragmenta um longo trecho, haja saco, mas nisto tudo não é sistemático, nem o suficientemente articulado, para dar a sensação de completitude. Faz-se trevas e luz, há movimento pelo cenário e, logo, a estática; há som (palavra, sonoplastia) e silêncio, mas havendo vestido, não se produz o nu, nem uma recitação de ponta cabeça, por exemplo, por quê? Oh, por quê? ‘Todos os sentido’, Seu Medina? Sei não! Não há gosto, há pouca visão, nada de cheiro, tato nem falar, ouvem-se palavras derramadas já meio neutralizadas, nada mais. Mas o meu sexto sentido me sopra:
– Precisamos matá-los, rápido - a temporada está durando muito, semanas, logo serão meses! - antes de que cresçam..., e queiram mais e mais, pois eu sim tenho alma e, agora, bem sinistra!


Gabriel Pasini

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Impressões de Juca Rodrigues

Juca Rodrigues assistiu novamente à peça Guizos no último dia da temporada (04/09) e também presenteou-nos com suas impressões em resposta ao texto de Agradecimento de Luiz Henrique Dias:

"Luiz,

É com grande satisfação que ontem à noite, fui assistir pela terceira vez a peça Guizos, desde o primeiro momento a peça me chamou atenção pelo conjuto de signos que se destaca, a frente de todos está uma brilhante dramaturgia que conduz a todos, equipe e grupo por um caminho cheio de expectativas e emoções. Cheguei em Foz no ano de 1998, não conheci muito dos trabalho que aconteceram na cidade antes desta data, no início de 2001 tive o privilégio de participar como diretor da montagem experimental da peça "A Mais Forte" de Strindberg, o que nos ensinou muito e nos fez crescer. Até pouco tempo pensava que era melhor buscar bons textos em dramaturgos europeus e que bons textos teatrais nacionais estavam muito distantes de nós, felizmente isso está mudando, Guizos traz de volta a Foz do Iguaçu, bons momentos de teatro e a oportunidade enfim de encararmos uma fase promissora para a dramaturgia da cidade.
Parabéns a todos, dramaturgo, diretor, ator, equipe, apoiadores e público".


Ator, Diretor Teatral, Diretor de Produção Artística.

Palavras de Luiz Henrique Dias

O autor do texto e encenador da peça Guizos, Luiz Henrique Dias, também um dos fundadores da Cia O Teatro do Excluído e idealizador do movimento de efetivação, em Foz do Iguaçu, desta concepção e criação teatral diversa de todas as repetições cansadas nas quais estava imersa a cidade e sua classe artística, expressou seu agradecimento e prestou sua homenagem digna de final de temporada no texto que segue:

Agradecimento

Hoje termina nossa primeira temporada de Guizos.

Escrita em janeiro e encenada durante todo o primeiro semestre, estreamos no início de julho e, desde então, foram dezenas de sessões.

Merecida pausa ao elenco e equipe técnica, a peça volta ao Teatro do Lupah! em 24 de setembro para, desta vez, ficar em cartaz até dezembro.

Esses últimos meses, no entanto, foram de constante aprendizado.

Aprendemos a não ter medo: aceitamos, ao lado de meu sócio Yuri Amaral, o desafio de parar de esperar a “boa vontade” do poder público em dar à cidade um espaço adequado para apresentações e, apenas com o apoio do ClickFoz (nosso parceiro de todas horas) para a compra de cadeiras mais confortáveis à plateia, adaptamos nossa Escola, a Lupah!, para receber o Guizos e tudo deu certo.

Aprendemos a não duvidar da capacidade do público: a maioria dos grupos teatrais de Foz do Iguaçu sempre tiveram o hábito de infantilizar o público. E fazem isso indiretamente, através da teatralização do óbvio e da ridicularização da capacidade de abstração, envolvimento e mesmo transmutação dos espectadores.

Aprendemos a respeitar a cidade: foram 60 dias de temporada permanente, sem cancelar nenhuma apresentação e fazendo extras quando houve público interessado. Mantemos nossa palavra e a cidade retribuiu comparecendo.

Aprendemos ser possível ir além: nos motivamos a montar outras peças, também de caráter profissional, como foi Guizos e buscando, a cada trabalho, melhorar.

Aprendemos a ignorar os idiotas: em mais de vinte sessões tivemos a visita de amigos mas, principalmente, do público espontâneo. A classe teatral passou longe do Guizos. Com exceção daqueles que trabalham com teatro e são próximos a mim ou ao meu grupo, como o Diretor Juca Rodrigues e as atrizes Cláudia Ribeiro e Poliana Anderle, além de alguns alunos meus no Núcleo de Dramaturgia, os integrantes dos dois “grandes grupos” do teatro de Foz do Iguaçu não apareceram para conhecer, assistir ou, ao menos, mostrar estarem unidos por algo, uma causa, maior que seus narizes. Habitaram o silêncio de sua mediocridade e, ainda, criticaram o trabalho a terceiros, mesmo sem ver a peça. Um deles respondeu o email de divulgação nos chamando de “idiotas”. Uma pena.

E não somente ao grupo foi um aprendizado. Para mim foi mais, muito mais.

Aprendi que o profissionalismo habita o campo do envolvimento.

Natacha Pastore e Gabriela Keller estrearam no teatro com a responsabilidade muitas vezes não assumidas por quem há anos está no mercado. Aprenderam, ensaiaram, executaram o som e a luz com uma destreza e precisão ímpar, sublime.

Gabriel Pasini é resultado de uma potência inexplicável e promissora. Tem tudo para ser um dos grandes atores do teatro brasileiro, só precisa continuar acertando, como acertou na construção do Tom.

Esses três (Natacha, Gabriel e Gabriela) encararam um texto denso, um monólogo e um teatro de bolso com espectadores próximos e atentos. Foram responsáveis por produzir uma tensão que, para ser mantida, deveria estar isenta de erros. Encararam uma temporada permanente. Tudo isso, quando comecei no teatro, há 14 anos, seria, no mínimo, um terror para mim. Para eles, foi só o começo.

Esses três enfrentaram nomes como o prof. Jorge Anthonio (doutor e referência em arte e loucura), Roberto Alvim (Prêmio Bravo de Teatro), Luiz Leprevost (revelação da dramaturgia nacional), diretores, professores, atores e escritores gabaritados.

Enfrentaram um público traumatizado pela baixa qualidade das produções de Foz.

Enfrentaram sessões fechadas para imprensa. Enfrentaram apresentações extras.

Aprendi, por fim, que tenho um grupo, uma companhia, formado por uma ideia e por comprometimento.

O resultado de tudo isso é darmos à cidade uma segunda temporada e, ainda este ano, produzirmos uma segunda peça – com mais envolvimento ainda – e, no decorrer do tempo, outras e outras. Queremos representar a cidade onde formos e, para isso, vamos construir uma companhia teatral de pesquisa e aprimoramento permanente e, acima de tudo, escrever, produzir e difundir a arte, combatendo ativamente as distorções da verdadeira função do teatro: ocupar o tempo e o espaço com a palavra.

Um abraço e obrigado a todos!

Luiz Henrique

Publicação orginal no site pessoal do autor.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Impressões



Nas últimas semanas, três artistas - e amigas da Companhia - presentearam-nos com suas impressões e belas palavras após assistirem à peça Guizos. 

Apreciem:

GUIZOS

Ontem eu vi GUIZOS. Dormi com GUIZOS. Hoje continuo vendo e ouvindo GUIZOS. Desde sempre preciso somente do silêncio e da penumbra e da palavra e de alguns porões pra viver. A palavra e o silêncio e certos escuros e alguns acordes sutis me bastam. Nos porões, além de teias e poeira e mistérios, há coisas bem imprescindíveis e lúcidas. Por isso vou permanecer nos sótãos de GUIZOS que estou bem lá, obrigada. Porque só sei o código da ARTE. Da ARTE. Da ARTE.

Por isso hoje beberei o vinho violeta Saint Germain que ganhei ontem das cronópias Nuria e Zinha - que estavam lá, com seus guizos também - beberei este vinho porque é véspera do meu aniversário e porque preciso celebrar o alívio de saber que não estou só na minha mais lúcida e consciente esquizofrenia que é esta escolha de optar por viver na PALAVRA, pela PALAVRA e da PALAVRA.

Beberei este vinho - como em Lavoura Arcaica - para celebrar a admiração que sinto pelo texto cirúrgico de Luiz Henrique Dias, pela atuação hipnótica de Gabriel Pasini, pelos bichos sonoros de Natacha Pastore e pela dona do fuzil escuro/claro Gabriela Keller. Celebrarei esta certeza e necessidade que sinto de escrever algo pra ser encenado por esta Companhia ou que eu mesma me "encene", ou ambos, ou, ou, ou.

Beberei este vinho pra confirmar minha vontade e meu projeto e minha CONDIÇÃO EXISTENCIAL sine qua non que é viver na ARTE, pela ARTE e DA ARTE. (destaque especial para o "DA", porque, embora eu goste do escuro, às vezes é preciso pagar a conta de luz).

Servirei deste mesmo vinho na noite em que lançarei meu Cronópio Godot, nos próximos dias, e onde farei algumas homenagens a cronópios mortos e vivos – eventualmente a alguns em coma - a alguns escuros e alguns silêncios, algumas facas, alguns ópios, algumas dramaturgias, alguns Vladimires e Estragons, algumas Clarices e suas baratas. Algumas demarcações de território. Algumas trincheiras. Algumas alquimias. In vino veritas.

Jeane Hanauer, 31/07/11

Um Teatro Para "Iniciados"

É o que propõe o "TEATRO DO EXCLUIDO" com o espetáculo GUIZOS que está em cartaz no Teatro da Lupah aos sábados e domingos aqui em Foz do Iguaçu. Estive entre os "doze" (número máximo de espectadores por sessão) neste sábado dia 30 e pude conferir a produção "bem cuidada" e "econômica" , num bom sentido, tudo com "cara" de teatro profissional, também, no melhor sentido, não sabendo se todos os envolvidos o são. Um "espetáculo"que prima pela palavra, dita de forma quase sempre "linear" (esboça intenções, talvez "intencioanlmente") pelo único ator em cena Gabriel Pasini. Não é interativo, embora, algumas vezes o texto coloca, nós espectadores, como os "fantasmas" do personagem e quebra a "quarta parede", através da força da palavra o que causa um certo "desconforto", já que somos pegos de "surpresa" dentro daquela situação "inesperada" e "incômoda" , sem olhos e com a boca costurada! Um personagem-narrador, transita entre a lucidez e a insanidade, lembrando muito a temática de Egar Allan Poe e uma interpretação muito bem marcada, coreografada, precisa, nada convencional, assim como o espaço, assim como o Teatro deve ser, livre e verdadeiro. É um alívio, de certo modo, saber que aqui, existem pessoas que estão dispostas a experimentar outras formas de se fazer teatro, talvez "nova" na região, mas que está sendo feito e visto em outras cidades, em outros estados, em outros países, em detrimento dos "enlatados e do besteirol" . Um Teatro "provocador", que nos dá outras opções, que sugere outros caminhos, que permite outras experiências, que acima de tudo, ao que parece, busca a "transformação", em minha opinião, a principal caracteristica da Arte. Iluminação e sonoplastia não se destacam, com certeza por estarem exatamente onde deveriam estar. Parabéns ao autor e diretor Luiz Henrique Dias, à Gabriel Pasini, à toda equipe. 
Minha vontade de voltar, aumentou um pouquinho mais! Se eu fosse vocês, não perderia!


Wynia Lopes em seu blog, 01/08/11


Enfim... Teatro!

Assisti à peça Guizos... Não consegui até agora dar nome ao sentimento que tomou conta de mim.


Na verdade não estou preocupada em denominar, mas o outro sentimento que ficou latente já tem nome: felicidade. Felicidade ao ver que temos aqui na cidade uma pessoa capaz de escrever um texto com tamanha qualidade onde a ênfase é totalmente da palavra.

O mais interessante é ver que o ator, de certa forma, fica nulo; somente o texto é que sobressai, mas é engano pensar que nesse espetáculo não há trabalho de ator e somente verborragia. O texto ganha o destaque justamente pelo fato de não nos prendermos às expressões corporais e nem às entonações e musicalidade da expressão oral. Essa desconstrução do ator que aparece, se expressa, fala, gesticula, é de fato muito difícil, para o diretor e principalmente para o ator. 

O blackout não é utilizado como recurso de logística, nessa peça. O blackout te provoca, te assombra e, de certa forma, contracena tanto com o personagem quanto com a platéia. 

É, com certeza, outro teatro, desses que não estamos muito acostumados a ver, principalmente aqui em Foz, onde a produção de peças teatrais ainda é muito pequena. Diante disso, é de grande importância que esse trabalho seja visto principalmente pelas pessoas de teatro que posteriormente possam debater e tentar expressar com palavras, se possível, a sensação que a peça provoca, enfim, trocar, pois o fazer teatro também está no ato de ver teatro. Creio que isso contribui para o crescimento profissional dos grupos, bem como o crescimento de uma produção teatral de maior qualidade. 

Portanto, recomendo... Veja Guizos e faça o que considerar mais prudente com as inquietações e as sensações, mas acima de tudo, permita-se senti-las.