No dia 04 de setembro, chegou ao fim a primeira temporada de Guizos. Desde o início da proposta, tínhamos, conscientemente, a intenção de ser um grupo que não fosse visto como um grupo que proporciona o entretenimento, mas uma companhia de teatro que dá ao seu público, e a seus integrantes, a possibilidade de desvendar - por meio de textos subjetivos e complexos, e de uma interpretação que foge aos parâmetros já conhecidos pela sociedade - outras faces do homem, o interior de indivíduos, a sua instabilidade e sua complexidade.
Tínhamos, também, como uma certeza, que causaríamos estranhamento, devido a esta nossa proposta, e também a nossa ousadia de trabalhar com um teatro repleto de complexidades e elementos inesperados para um público que está acostumado a espetáculos pastelões, que tem como única intenção o entretenimento e a domesticação e unidade de sensações e sentimentos.
Após a estreia, e durante toda a temporada, foi então, para nós, uma grande surpresa o número de elogios e de aceitação do público à nossa maneira de fazer teatro, tanto daqueles que já são do meio, quanto de pessoas que vieram ao nosso teatro por curiosidade, ou por vontade de ver teatro.
Esperamos, então, de alguma maneira, que recebessemos alguma crítica, alguma visão negativa ao nosso trabalho. Tivemos o conhecimento, no início desta semana, logo após o final da bem sucedida temporada, de um texto que começou a circular por e-mails. Pessoas próximas a nós nos disseram que este era um texto que criticava nosso teatro, nossa maneira de dirigir, atuar, e trabalhar o tão elogiado texto do dramaturgo Luiz Henrique Dias.
Porém, ao analisarmos o texto, e o contexto de tudo que está ali escrito, visualizamos os comentários do autor, que assina o texto como Antônio, de uma maneira um tanto quanto diferente.
O autor menciona em seu texto a definição de dramaturgia de Aristóteles, uma visão antiga, e que é justamente o que nós, e todos os grupos que trabalham com teatro contemporâneo, tentamos desmitificar.
Há também, visivelmente, uma sensação de incômodo do autor a todos os elementos que constituem nosso teatro, tanto o texto, quanto a estrutura física, os sons, as luzes, o ator, os integrantes. Tudo que o autor diz para criticar, nós não vemos de maneira negativa. A chateação com os sons dos interruptores, a monotonia e repetição da música, a estaticidade do ator, a tonalidade de sua voz. Todas as sensações descritas no texto, são intencionais. Vimos, então, que se a incomodação foi tamanha, que levou esta pessoa a escrever um texto, a pesquisar termos e conceitos e nomes, e tirou horas do seu dia para que conseguisse escrever este texto, nós conseguimos, então, cumprir nosso papel, o que pretendíamos desde o início: causar estranhamento, e criar vários questionamentos no público.
O texto, que postaremos abaixo, é visto pelos integrantes do Teatro do Excluído, então, não como uma crítica negativa, mas sim, como um elogio esquizofrênico, uma tentativa desesperada de expulsar do autor os demônios que habitaram seus pensamentos após ter assistido Guizos, e que o perturbaram a ponto de escrever até agressões. É apenas necessário, agora, que os questionamentos que a peça o causaram, sejam solucionados, e que ele possa, então, assistir-nos novamente, e talvez abrir as portas para outras novas sensações que ainda seremos capazes de causar em nossa plateia.
‘GUIZOS’ EM FOZ
(4/setembro/2011 - Antônio)
DESAMBIGUAÇÃO: Há, desde 2002, OS GUIZOS, uma equipa de teatro etc. em Portugal com proposta semelhante e três peças em cartaz.
FAZ MUITO TEMPO Aristóteles definiu a dramaturgia como a organização de ações humanas de forma coerente provocando fortes emoções ou um estado irreprimível de gozo ou maravilhamento (sic).
NO DÉPLIANT. Respeitam o TO do Boal, mas não o parafraseiam. Querem inovar a inovação e, como o R. Alvim (amante de Poe e fundador do Club Noir), querem provocar. Consideram-se a nova proposta na cidade. Estão coesos na pesquisa e na ‘experienciação’, eta palavrinha que cresceu, né?! Que-rem reescrever o teatro. E para ocupar instâncias criadas à base de contraposições como luz-trevas, presença cênica-ausência, palavra-silêncio, é que Guizos foi criado(o?). É a história de quem não somos. ‘O assassinato’ (singular), diz o Luiz Henrique, ‘é pouco diante do asco humano’. Só não entendi porque o ‘Tom mata por amar’. E que ‘dialoga com o vazio’; mas como do vazio não sai uma só palavra... também não entendi, acho que ele só monologa mesmo, sabe?! Pelo jeito o Pasini entendeu tudo desde o começo. Que coisa, hein?! E comentam que ‘sua interpretação [vírgula] estática [vírgula] é genial’. Não atino como a estática num ator [agir/atuar] possa ser genial. A Pastore ‘produziu, em acordes [vírgula] mixados [vírgula] a tensão exata’ e monótona também, ajuntemos. A Keller ‘deu vida à palavra’, ai, aqui doeu. A moça incomodou a peça inteira com um teque-teque enervante que daria vida é a um palavrão... Pétalas são jogadas no Virgínio dos refletores que tão pouco refletiram e no Amaral publicitário... No comment! Parece que ele é bom. A pretensão da equipe se esvazia toda na frase: Guizos é somente o que quisemos que fosse: uma historia contada – quase – no escuro. Recitada!
O MINIMALISMO. A fachada da salinha Lupah é bem minimalista com uma pincelada do Miró naïf. “Segundo os minimalistas, formas mínimas garantem intensidade máxima na experiência, na fruição da obra.” Só 12 expectadores no máximo, avisa logo o vendedor de ingressos que é o dramaturgo e o diretor da peça. Só 12 e ‘com a boca costurada grosseiramente’, a gente fica sabendo depois. O cliente, porém, não achará o preço da entrada tão minimalista. No fundo, o minimalismo é bem capitalista, afinal a idéia é conseguir o máximo (do proveito ou lucro) com o mínimo (de inversão e serviço) e o bem vendido não tem que durar, para poder... Mas não é o caso de Guizos, tá?!
AO ENTRAR na sala minúscula, cortinas escuras, a claustrofobia fica à espreita, banquinhos desconfortáveis lhe desestabilizam. Você poderá ter a impressão de ter chegado a uma sessão de espiritismo kardecista, mas não se assuste. Pra começar a luz insuficiente não é azul, não há copos de água fluidificada e o ator do personagem esquizofrênico faz questão de não ter alma. Como pode haver espírito desse jeito?
LUCUBRO então: Sertanejos vazam os olhos de certos passarinhos pra que eles, não vendo a luz e ansiando por ela, cantem mais bonito ainda e o tempo todo. Os velhos europeus castravam os meninos afinados para que, crescendo, não perdessem o timbre angelical. Os necrófilos, não podendo sempre violar os cemitérios, adoram transar com putas que se fingem de mortas. Viria a calhar um recurso técnico bem inovador em Guizos. Escutar toda a peça com e somente com um daqueles programas gratuitos de Internet que lêem textos de maneira bastante competente, não obstante o acento metálico. E pra não repetir Artaud com o uso dos manequins no espetáculo, a atual animação gráfica poderia ser outro recurso interessante. O Pasini, dando um passo em direção à excelência na performance, poderia ir entregando, durante a apresentação, aos poucos e em total silêncio, o texto do poema escrito, aos assistentes, assim em meias folhas de A4, poderia até amassá-las um pouco, e jogálos no chão, para dar asco, mas amassá-los só um pouco. Afinal o respeito à palavra deve predominar, mas ai, por favor, precisariam poupar-nos dos teque-teques exasperantes dos interruptores, pra gente poder ler sossegado. Por outro lado, alvíssaras! Não escutei o chatíssimo ‘r’ retroflexo, que infesta também esta nossa região paranaense, parabéns Pasini! Dicção clara e gostosa! Sua mão (dele) magra e nervosa (os dedos angulosos, veja no Youtube), já no início tamborila na parede ‘poeirenta’ como uma aranha transitando, tecendo, negaceando, num perigoso crescer, menciona-se a cadeia trófica... e a fala dá a clave de leitura do todo: a gente mata os filhos, pra não ter que dar-lhes cada coisa, tudo, até a própria alma, que ele nem possui. Desce o pau no consumismo e na TV, na TV, na TV, numa ladainha bem lúcida, é o Dias!
O PADRINHO MEDINA. Nos quadros que se sucedem caóticos, assim é a vida, você descobre que o dramaturgo e seu cúmplice, o ator, pretendem (tão pretensiosos) fazê-los emblemas “dos tempos híbridos em que vivemos” (é o Medina que escreve isto na resenha, p. 4 do prospecto obscuro, pela gráfica e pelo conteúdo e luminoso no beneplácito), tempos “que não apresentam enquadraturas configurantes”. Ele tem toda a razão de que “necessitamos de olhares luminosos sobre o humano”. Depois desta peça, você sai convencidinho disto. O Tom varia, tresvaria, se ausenta, se apresenta e, tadinho, foge no final da peça. Você pode até aplaudir, mas ficará sem graça, ele não aparece meijmo! Assim, junta ao parricídio duplo o infanticídio e a este, o suicídio. Pasini, cujo nome é Gabriel, anula ‘o poema de sua vida’, para não prejudicar o do Luis Enrique Dias que prefere as noites. Afinal o ideal do mencionado ator é ser marionete, andróide, zumbi, sei lá! Ah, se o sindicato dos atores souber disto! Mas falando sério: este Maeterlinck é bem doido, né? Mas três frases dele não: 1) O silêncio é o elemento no qual se formam as grandes coisas. 2) Se é incerto que a verdade que vais dizer seja compreendida, cala-a. 3) A inteligência é a faculdade com o auxílio da qual compreendemos por fim que tudo é incompreensível. Todos devemos bater no peito.
CADÊ O TO? Fiquei oprimido durante toda a sessão e, por isto, tive saudades do Boal e seu TO, o da desmecanização física e intelectual de seus praticantes, e da democratização do teatro, mas se isto sumiu nos Guizos, saudoso Boal, já é culpa do dramaturgo-diretor que não quer mesmo parafraseá-lo. Radicalizaram uma tirada do Diderot que queria só ‘uma certa marionetização da arte do ator, e não sua substituição por um boneco’. E o Tom, noutro Tom, se vitupera esquizóide que seu Deus não virá.
– Idiota! diz. E varia o danado, dizque pra ‘valorizar a palavra’, muda de tom, de ritmo, de volume, fragmenta um longo trecho, haja saco, mas nisto tudo não é sistemático, nem o suficientemente articulado, para dar a sensação de completitude. Faz-se trevas e luz, há movimento pelo cenário e, logo, a estática; há som (palavra, sonoplastia) e silêncio, mas havendo vestido, não se produz o nu, nem uma recitação de ponta cabeça, por exemplo, por quê? Oh, por quê? ‘Todos os sentido’, Seu Medina? Sei não! Não há gosto, há pouca visão, nada de cheiro, tato nem falar, ouvem-se palavras derramadas já meio neutralizadas, nada mais. Mas o meu sexto sentido me sopra:
– Precisamos matá-los, rápido - a temporada está durando muito, semanas, logo serão meses! - antes de que cresçam..., e queiram mais e mais, pois eu sim tenho alma e, agora, bem sinistra!