Nas últimas semanas, três artistas - e amigas da Companhia - presentearam-nos com suas impressões e belas palavras após assistirem à peça Guizos.
Apreciem:
GUIZOS
Ontem eu vi GUIZOS. Dormi com GUIZOS. Hoje continuo vendo e ouvindo GUIZOS. Desde sempre preciso somente do silêncio e da penumbra e da palavra e de alguns porões pra viver. A palavra e o silêncio e certos escuros e alguns acordes sutis me bastam. Nos porões, além de teias e poeira e mistérios, há coisas bem imprescindíveis e lúcidas. Por isso vou permanecer nos sótãos de GUIZOS que estou bem lá, obrigada. Porque só sei o código da ARTE. Da ARTE. Da ARTE.
Por isso hoje beberei o vinho violeta Saint Germain que ganhei ontem das cronópias Nuria e Zinha - que estavam lá, com seus guizos também - beberei este vinho porque é véspera do meu aniversário e porque preciso celebrar o alívio de saber que não estou só na minha mais lúcida e consciente esquizofrenia que é esta escolha de optar por viver na PALAVRA, pela PALAVRA e da PALAVRA.
Beberei este vinho - como em Lavoura Arcaica - para celebrar a admiração que sinto pelo texto cirúrgico de Luiz Henrique Dias, pela atuação hipnótica de Gabriel Pasini, pelos bichos sonoros de Natacha Pastore e pela dona do fuzil escuro/claro Gabriela Keller. Celebrarei esta certeza e necessidade que sinto de escrever algo pra ser encenado por esta Companhia ou que eu mesma me "encene", ou ambos, ou, ou, ou.
Beberei este vinho pra confirmar minha vontade e meu projeto e minha CONDIÇÃO EXISTENCIAL sine qua non que é viver na ARTE, pela ARTE e DA ARTE. (destaque especial para o "DA", porque, embora eu goste do escuro, às vezes é preciso pagar a conta de luz).
Servirei deste mesmo vinho na noite em que lançarei meu Cronópio Godot, nos próximos dias, e onde farei algumas homenagens a cronópios mortos e vivos – eventualmente a alguns em coma - a alguns escuros e alguns silêncios, algumas facas, alguns ópios, algumas dramaturgias, alguns Vladimires e Estragons, algumas Clarices e suas baratas. Algumas demarcações de território. Algumas trincheiras. Algumas alquimias. In vino veritas.
Jeane Hanauer, 31/07/11
Um Teatro Para "Iniciados"
É o que propõe o "TEATRO DO EXCLUIDO" com o espetáculo GUIZOS que está em cartaz no Teatro da Lupah aos sábados e domingos aqui em Foz do Iguaçu. Estive entre os "doze" (número máximo de espectadores por sessão) neste sábado dia 30 e pude conferir a produção "bem cuidada" e "econômica" , num bom sentido, tudo com "cara" de teatro profissional, também, no melhor sentido, não sabendo se todos os envolvidos o são. Um "espetáculo"que prima pela palavra, dita de forma quase sempre "linear" (esboça intenções, talvez "intencioanlmente") pelo único ator em cena Gabriel Pasini. Não é interativo, embora, algumas vezes o texto coloca, nós espectadores, como os "fantasmas" do personagem e quebra a "quarta parede", através da força da palavra o que causa um certo "desconforto", já que somos pegos de "surpresa" dentro daquela situação "inesperada" e "incômoda" , sem olhos e com a boca costurada! Um personagem-narrador, transita entre a lucidez e a insanidade, lembrando muito a temática de Egar Allan Poe e uma interpretação muito bem marcada, coreografada, precisa, nada convencional, assim como o espaço, assim como o Teatro deve ser, livre e verdadeiro. É um alívio, de certo modo, saber que aqui, existem pessoas que estão dispostas a experimentar outras formas de se fazer teatro, talvez "nova" na região, mas que está sendo feito e visto em outras cidades, em outros estados, em outros países, em detrimento dos "enlatados e do besteirol" . Um Teatro "provocador", que nos dá outras opções, que sugere outros caminhos, que permite outras experiências, que acima de tudo, ao que parece, busca a "transformação", em minha opinião, a principal caracteristica da Arte. Iluminação e sonoplastia não se destacam, com certeza por estarem exatamente onde deveriam estar. Parabéns ao autor e diretor Luiz Henrique Dias, à Gabriel Pasini, à toda equipe.
Minha vontade de voltar, aumentou um pouquinho mais! Se eu fosse vocês, não perderia!
Wynia Lopes em seu blog, 01/08/11
Enfim... Teatro!
Assisti à peça Guizos... Não consegui até agora dar nome ao sentimento que tomou conta de mim.
Na verdade não estou preocupada em denominar, mas o outro sentimento que ficou latente já tem nome: felicidade. Felicidade ao ver que temos aqui na cidade uma pessoa capaz de escrever um texto com tamanha qualidade onde a ênfase é totalmente da palavra.
O mais interessante é ver que o ator, de certa forma, fica nulo; somente o texto é que sobressai, mas é engano pensar que nesse espetáculo não há trabalho de ator e somente verborragia. O texto ganha o destaque justamente pelo fato de não nos prendermos às expressões corporais e nem às entonações e musicalidade da expressão oral. Essa desconstrução do ator que aparece, se expressa, fala, gesticula, é de fato muito difícil, para o diretor e principalmente para o ator.
O blackout não é utilizado como recurso de logística, nessa peça. O blackout te provoca, te assombra e, de certa forma, contracena tanto com o personagem quanto com a platéia.
É, com certeza, outro teatro, desses que não estamos muito acostumados a ver, principalmente aqui em Foz, onde a produção de peças teatrais ainda é muito pequena. Diante disso, é de grande importância que esse trabalho seja visto principalmente pelas pessoas de teatro que posteriormente possam debater e tentar expressar com palavras, se possível, a sensação que a peça provoca, enfim, trocar, pois o fazer teatro também está no ato de ver teatro. Creio que isso contribui para o crescimento profissional dos grupos, bem como o crescimento de uma produção teatral de maior qualidade.
Portanto, recomendo... Veja Guizos e faça o que considerar mais prudente com as inquietações e as sensações, mas acima de tudo, permita-se senti-las.
Cláudia Ribeiro no Portal ClickFoz, 15/08/11
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