O autor do texto e encenador da peça Guizos, Luiz Henrique Dias, também um dos fundadores da Cia O Teatro do Excluído e idealizador do movimento de efetivação, em Foz do Iguaçu, desta concepção e criação teatral diversa de todas as repetições cansadas nas quais estava imersa a cidade e sua classe artística, expressou seu agradecimento e prestou sua homenagem digna de final de temporada no texto que segue:
Agradecimento
Hoje termina nossa primeira temporada de Guizos.
Escrita em janeiro e encenada durante todo o primeiro semestre, estreamos no início de julho e, desde então, foram dezenas de sessões.
Merecida pausa ao elenco e equipe técnica, a peça volta ao Teatro do Lupah! em 24 de setembro para, desta vez, ficar em cartaz até dezembro.
Esses últimos meses, no entanto, foram de constante aprendizado.
Aprendemos a não ter medo: aceitamos, ao lado de meu sócio Yuri Amaral, o desafio de parar de esperar a “boa vontade” do poder público em dar à cidade um espaço adequado para apresentações e, apenas com o apoio do ClickFoz (nosso parceiro de todas horas) para a compra de cadeiras mais confortáveis à plateia, adaptamos nossa Escola, a Lupah!, para receber o Guizos e tudo deu certo.
Aprendemos a não duvidar da capacidade do público: a maioria dos grupos teatrais de Foz do Iguaçu sempre tiveram o hábito de infantilizar o público. E fazem isso indiretamente, através da teatralização do óbvio e da ridicularização da capacidade de abstração, envolvimento e mesmo transmutação dos espectadores.
Aprendemos a respeitar a cidade: foram 60 dias de temporada permanente, sem cancelar nenhuma apresentação e fazendo extras quando houve público interessado. Mantemos nossa palavra e a cidade retribuiu comparecendo.
Aprendemos ser possível ir além: nos motivamos a montar outras peças, também de caráter profissional, como foi Guizos e buscando, a cada trabalho, melhorar.
Aprendemos a ignorar os idiotas: em mais de vinte sessões tivemos a visita de amigos mas, principalmente, do público espontâneo. A classe teatral passou longe do Guizos. Com exceção daqueles que trabalham com teatro e são próximos a mim ou ao meu grupo, como o Diretor Juca Rodrigues e as atrizes Cláudia Ribeiro e Poliana Anderle, além de alguns alunos meus no Núcleo de Dramaturgia, os integrantes dos dois “grandes grupos” do teatro de Foz do Iguaçu não apareceram para conhecer, assistir ou, ao menos, mostrar estarem unidos por algo, uma causa, maior que seus narizes. Habitaram o silêncio de sua mediocridade e, ainda, criticaram o trabalho a terceiros, mesmo sem ver a peça. Um deles respondeu o email de divulgação nos chamando de “idiotas”. Uma pena.
E não somente ao grupo foi um aprendizado. Para mim foi mais, muito mais.
Aprendi que o profissionalismo habita o campo do envolvimento.
Natacha Pastore e Gabriela Keller estrearam no teatro com a responsabilidade muitas vezes não assumidas por quem há anos está no mercado. Aprenderam, ensaiaram, executaram o som e a luz com uma destreza e precisão ímpar, sublime.
Gabriel Pasini é resultado de uma potência inexplicável e promissora. Tem tudo para ser um dos grandes atores do teatro brasileiro, só precisa continuar acertando, como acertou na construção do Tom.
Esses três (Natacha, Gabriel e Gabriela) encararam um texto denso, um monólogo e um teatro de bolso com espectadores próximos e atentos. Foram responsáveis por produzir uma tensão que, para ser mantida, deveria estar isenta de erros. Encararam uma temporada permanente. Tudo isso, quando comecei no teatro, há 14 anos, seria, no mínimo, um terror para mim. Para eles, foi só o começo.
Esses três enfrentaram nomes como o prof. Jorge Anthonio (doutor e referência em arte e loucura), Roberto Alvim (Prêmio Bravo de Teatro), Luiz Leprevost (revelação da dramaturgia nacional), diretores, professores, atores e escritores gabaritados.
Enfrentaram um público traumatizado pela baixa qualidade das produções de Foz.
Enfrentaram sessões fechadas para imprensa. Enfrentaram apresentações extras.
Aprendi, por fim, que tenho um grupo, uma companhia, formado por uma ideia e por comprometimento.
O resultado de tudo isso é darmos à cidade uma segunda temporada e, ainda este ano, produzirmos uma segunda peça – com mais envolvimento ainda – e, no decorrer do tempo, outras e outras. Queremos representar a cidade onde formos e, para isso, vamos construir uma companhia teatral de pesquisa e aprimoramento permanente e, acima de tudo, escrever, produzir e difundir a arte, combatendo ativamente as distorções da verdadeira função do teatro: ocupar o tempo e o espaço com a palavra.
Um abraço e obrigado a todos!
Luiz Henrique
Publicação orginal no site pessoal do autor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário