quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Roberto Alvim e Luiz Henrique Dias escrevem sobre Como Se Eu Fosse o Mundo

UMA EPIFANIA EM FOZ DO IGUAÇU 

Texto de Roberto Alvim para o programa da peça Como Se Eu Fosse o Mundo, da Cia Experiencial O Teatro do Excluído.

estive com luiz henrique dias em foz do iguaçu há algum tempo, por ocasião de uma palestra que ministrei acerca dos novos rumos do teatro contemporâneo brasileiro. nesta ocasião, luiz me falou sobre o sonho de fundar um teatro, que seria a sede de sua companhia, espaço dedicado exclusivamente à investigação de novas possibilidades estéticas para a dramaturgia, para a atuação e para a encenação em nosso país. percebi seu entusiasmo absoluto com o projeto, e me alegrei com ele diante de seus planos, mas confesso que não acreditei que fosse levar a cabo a empreitada (tão difícil, tão na contra-mão de nossa sociedade idiotizante e paralisadora). passados alguns meses, minha alegria foi indizível quando soube que o TEATRO DA LUPAH! já estava sendo inaugurado, e com um texto de sua própria autoria (GUIZOS, obra que sempre considerei brilhante). tive o imenso prazer de assistir a montagem em foz e pude confirmar que ali estava se formando uma companhia rara, repleta de potencialidades, em um trabalho de estreia que já apontava para uma criação madura, inventiva e sem concessões ao senso comum. 

agora, a CIA EXPERIENCIAL O TEATRO DO EXCLUÍDO se aventura em sua segunda encenação (trabalhando com um texto que eu já encenei em 2010), COMO SE EU FOSSE O MUNDO, obra-prima de paulo zwolinski, produto do primeiro ano do NÚCLEO DE DRAMATURGIA DO SESI PARANÁ. a continuidade do trabalho na sede deste precioso grupo configura um milagre, uma epifania em um país que faz de tudo para rechaçar a alteridade. e, mais que isso, confirma o compromisso quase suicida de artistas que criam obras de arte sem concessões, procurando (e conseguindo) ampliar o campo de trabalho do teatro em novas direções, expandindo a própria experiência humana de maneiras imprevisíveis neste nosso início de século XXI. 

tenho certeza de que esta nova montagem irá se desenhar como passo decisivo na configuração de uma linguagem cênica própria, singular; e é de artistas singulares que o teatro brasileiro mais precisa. parabéns por mais esta conquista, caros amigos do teatro do excluído, e sigamos em frente, porque o jogo está apenas começando. 


O Teatro e a Palavra 

Texto de Luiz Henrique Dias 
para o programa da peça Como Se Eu Fosse o Mundo, da Cia Experiencial O Teatro do Excluído.

Num ensaio, certo dia, discutindo sobre qual seria nossa próxima montagem, o ator Gabriel Pasini propôs “Como se eu fosse o mundo”, do Paulo Zwolinski. Eu não conhecia o teor do texto. Sabia apenas do reconhecimento do trabalho do Paulo no Núcleo de Dramaturgia SESI-PR e da montagem feita pelo Roberto Alvim no Festival de Teatro de Curitiba. 

Demorei duas semanas para ler a peça. 

Fiz isso com a ajuda da – na época iluminadora da Companhia e hoje atriz – Gabriela Keller. Fizemos uma leitura em voz. Fiquei surpreso com a potência do material e, principalmente, suas possibilidades. O contato com o autor foi imediato e iniciamos a montagem. 

Optei por trazer ao palco um terceiro ator, um terceiro elemento cênico, pois aqui, no Teatro do Excluído, os atores são elementos cênicos, propagadores da palavra, e escolhi o Guilherme Cardin. O julguei apto a fazer parte do processo por sua simplicidade complexa e pela forma singular com que vê o teatro. 

Em Como se eu fosse o mundo amplificaremos nossa proposta. Zelaremos pela imobilidade. Daremos o devido espaço à palavra, para que ela o ocupe intensamente. Serão dez espectadores por sessão, convidados a ouvir uma bela obra, sem as interferências violentas do teatro espetáculo. Sem sustos. Sem medo. Apenas com respeito e discrição. O respeito e a discrição que o teatro tanto merece. 

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